Qualidade de Vida
Artigo de Jose Carlos Cunha
Hoje em dia virou moda se falar em qualidade de vida. Não existe empresa, associação escola e até mesmo instituto de pesquisa que não dedique espaço, tempo e reflexão sobre o assunto.
O que significa qualidade de vida? Esta pergunta, fundamental para entendermos o que se pretende atingir, na realidade não tem resposta simples. E não a tem porque todos nós somos indivíduos com sonhos, pretensões, desejos, atitudes e mesmo preguiças diferenciadas.
Por que é importante esta tal de qualidade de vida? Nos tempos antigos, quando ainda não havia a comunicação eletrônica, o mundo era mais tranqüilo e havia melhor qualidade de vida. Será? Não me saem da cabeça os comentários com que nossos pais e avós se referiam aos seus empregos: “aquilo lá é um inferno…”; “são todos umas antas…”; “a melhor parte da semana é na sexta-feira…” e por ai iam as frases que definiam o tipo de qualidade de vida que nossos antecessores tinham em seus ambientes profissionais.
As, que eles tinham uma vantagem, tinham. Naqueles tempos, o emprego era virtualmente (não é interessante usar esta palavra tão do mundo atual para descrever uma situação tão do passado?) vitalício e o individuo quando entrava numa empresa, era para lá ficar. Meu pai, por exemplo, trabalhou desde os seus dezoito anos até se aposentar, quase aos sessenta, no Banco do Brasil e lá fez carreira. Aliás, este conceito de plano de carreira era bem daquela época. Havia, dadas as circunstâncias, uma delegação de responsabilidade de vida. Funcionava como uma troca: você me dá sua submissão e fidelidade e eu te dou a segurança da estabilidade no emprego. E, note-se, que falamos, de fato, de fidelidade, pois, dados os comentários que estão acima exemplificados, lealdade era quase anacrônica.
Na vida pessoal, no entanto, a situação era melhor, não era? Também aqui, como diz o bordão, há controvérsias. As pessoas certamente andavam mais, pois carro era artigo de luxo. Havia menos violência, mas as doenças mortais eram em maior numero. Liberdade era artigo de luxo, reservado para muito poucos e a sexualidade era tabu. As escolhas eram restritas, não havia ainda o conceito de globalização e, pior, não existiam nem Internet nem telefone celular. E nem banco 24 horas, acreditem… Como é que se pode falar em qualidade de vida naquele tempo?
Então, onde ficamos? Se um dos nossos mitos, o de que o passado era melhor, não é real; se não podemos falar em qualidade de vida no emprego e não sabemos o que isso significa, estamos encrencados, não é?
Vamos lembrar de um dos pilares da investigação da alma do ser humano, o Dr. Abraham Maslow. Talvez, se olhássemos para sua tão conhecida teoria da pirâmide de necessidades, pudéssemos encontrar algum sentido nesta charada em que nos metemos. Vejamos a tabela abaixo, que emula a Pirâmide “Hierarchy of Needs” do cientista:
De acordo com Maslow, o ser humano tem dois grupos de necessidades a serem atendidas. À do primeiro grupo, ele chamou de necessidades por deficiência (deficiency needs) e à segundo, necessidades de crescimento (growth needs). Dentro do grupo das necessidades por deficiência só se passa para o nível imediatamente acima quando atendidas as referentes ao nível antecedente. Neste grupo da pirâmide, uma vez atendidas essas necessidades, se em algum momento do futuro alguma delas deixar de ser satisfeita, ou seja, alguma deficiência é notada, a pessoa vai agir para eliminar esta deficiência.
As necessidades do grupo de crescimento, para Maslow, só serão trabalhadas quando as inferiores estiverem satisfeitas. No nível fisiológico estão a fome, a sede, o cuidado com o corpo etc. O de segurança é claramente auto-explicativo. No nível de Pertença e Amor está a interação com o outro, a aceitação pelo grupo e no de Estima a aceitação pessoal, a obtenção de competência, o recebimento de aprovação e reconhecimento.
Maslow, inicialmente, caracterizou um único nível no grupo de crescimento, o de auto-realização. Seria característico dos indivíduos auto-realizados serem focados em problemas, possuírem um permanente sentido de apreciação da vida, preocuparem-se com o seu crescimento pessoal e estarem disponíveis para experiências marcantes, agudas. Posteriormente dividiu este grupo e acrescentou dois níveis inferiores, como apresentado na figura. Estes dois níveis são chamados Cognitivo e Estético. São características do Cognitivo a necessidade de conhecer, de entender e de pesquisar. Do Estético, a busca da simetria, da ordem e da beleza.
Desta visão de mestre que Maslow nos deixou, fica a explicação das questões referentes à qualidade de vida. Na realidade uma pessoa hoje tem a possibilidade única de atingir completamente o pico da pirâmide, o nível de transcendência, inclusive em sua vida profissional e isso explica porque as empresas, as associações e as escolas se preocupam em tentar proporcionar esta possibilidade pelo menos aos seus mais talentosos colaboradores. E explica também porque um instituto de pesquisa como o nosso se preocupa em discutir o assunto.
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